Urso de Peluche

Este pó irrita-me, Irrita-me mesmo! Dantes era atirado para dentro do tanque sem que pudesse dizer nada. Agora… Que camada, bolas! Nem se percebe a minha cor!

Quando vim para este quarto, a decoração era bem diferente. Tudo com bonecos, cores suaves, móveis em ponto pequeno. Eu era enorme, nessa altura. Era abraçado por projectos de braços, projectos de braços de homem, mas que eram só de criança. Dormia sempre aconchegado entre a sua cara e a almofada, embora acordasse muitas vezes no chão.

Depois veio a mobília grande, castanha, as estantes com livros, os carrinhos por todo o lado. Nada disso me fazia inveja. Em chegando a noite, era eu quem ficava no abraço dos braços já mais parecidos com braços de gente.

Nas viagens, ia sempre. Fechado nas malas, atirado para o porta-bagagens, lá ia eu. Nunca me importei. E fui muitas vezes admirado por outras mãos, quando os quartos eram partilhados com outros projectos de gente.

Já os braços eram adultos, e eu ainda estava no meu posto. Depois, tudo mudou. O porquê deste lugar, aqui, na prateleira, não sei.

Não vale a pena relembrar mais nada. Estou há bastante tempo sem abraços e a dormir na estante, entre uma marioneta partida e um palhaço zarolho. A todos se aplica a camada de pó cinzenta, descontínua. Descontínua porque, às vezes, há umas mãos que nos levantam e nos pousam, para ver se ainda estamos vivos, mas nada mais. Anos e anos.

Vejo-o chegar. Senta-se na borda da cama com uma fotografia na mão. Dessa fotografia confesso que senti inveja, porque esteve ao pé dele muitas noites. Ele está a olhar para ela e diz que não com a cabeça. Pois, confiam em pessoas em vez de confiar em peluches como eu, o que é que querem? Eu posso ter o nariz gasto, o pelo rasteiro, um olho mal pregado, mas sou fiel. Fiel! Agora as pessoas… Aliás, vê-se pela minha sorte. Ele está ali a olhar para a fotografia. Tonto! Fosse um pesadelo, e eu tratava dele num instante!

Levantou-se. Pôs a fotografia no lixo. No lixo?! Bom, já é melhor, muito bem. A cara está lá, no meio dos outros papéis, com um sorriso parvo. Bem feita!

Anda de um lado para o outro, sem destino. Parece que anda à procura de qualquer coisa. Está a olhar para mim! Será que se lembra?! Pegou em mim! E o pó? Não espirra?!

Está a abrir a janela. Será que é o contrário do que pensei? Sinto violentas pancadas por todo o corpo. Ia queixar-me, mas vi que o pó se suicidava pelo prédio abaixo. Despedi-me dele, contente. A janela fechou-se.

Uma cama aberta, um pijama que não conheço. Uns braços de homem, mais peludos do que eu, abraçam-me com força. Sinto que está a sofrer. Um pesadelo? Eu trato! Não há pesadelos que me façam frente! Aperto-o bem contra mim. Sossega. Já respira mais devagar. Adormece, comigo preso nos braços adultos. Tenho sono. Mas não vou adormecer. Vou aproveitar todos os minutos que me separam do chão.

 

Margarida Fonseca Santos in “De Nome, Esperança”

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